segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

contos


#1

(...) depois de tanto consumir
sua droga megalomaníaca,
se deu conta de que estava cego,
cego para o mundo e sua realidade,
que para ele não era suficiente.
afundou-se em alucinações,
sonhos confortáveis e macios
como a cama
de onde você considera
sua própria casa;

depois de tanto consumir
sua droga megalomaníaca
se convenceu a construir uma ideia
(como um grande e majestoso castelo)
indestrutível, impenetrável e única,
que de tão perfeita e métrica,
era confusa
era falsa
e se esfacelou
em frente aos seus olhos,
como um castelo feito de areia suja e úmida.

“Cara J.,
um dia eu pensei  
que quando estivesse ao seu lado
tudo seria leve.
Mas eu estava errado.
Sim, eu estava errado.
Por você, apostei tudo o que tinha,
embora eu não tivesse
nada a perder. Adeus.”

Somos muito mais do que uma imagem que queremos bancar, mas às vezes nos prendemos a certas representações de tal forma que esquecemos aquilo que nos orgulhavamos de ser um dia. Embora sempre ouça as pessoas dizerem que não mudariam nada no passado delas (eu já disse isso), hoje lamento que tenha sido assim. Mas para ele, já era tarde:

continuou a carregar pelo píer
a sua megalomania intacta
em uma garrafa de bebida barata

justo ela,
a mesma que o fez perder de vista
quem realmente o amava
tantas e tantas vezes...

ele tirou o seu sobretudo
e se  jogou no mar.

percebeu que o seu sonho nunca poderia se tornar real,
mas poderia ser diferente,
    poderia ser melhor
    poderia ser pior,
    poderia ser até, constrangedor,
    mas nada seria como imaginou.


#2

com um riso tímido,
e olhos virados para o chão;
lembrei de um momento bom.

descíamos aquelas escadas falando da beleza das coisas
como dois bobos...

a minha imagem é puramente, poesia.
a poesia visual, culta e métrica
que vendo à você, vendo você
com um sorriso bobo,
porém verdadeiro.

outro dia
com um riso tímido,
olhos virados para o chão
e sentados em um banco qualquer,
percebi o quão engraçado
tudo isso poderia ser

mas talvez isso não signifique o mesmo pra você.


 #3

         (...)Embarquei naquela viagem matinal como quem não esperava grande coisa. Mas um encontro aparentemente banal com outra me fez lembrar o quanto pequenas coisas podem significar muito. O caminho era a última coisa pela qual eu me interessava naquele momento. O tempo passou rápido. Eu poderia me ter concentrado na beleza de seus olhos, no jeito como as palavras vinham de você; poderia ter aproveitado cada minuto como se fosse o último; poderia ter dito o que eu estava prestes a fazer naquele dia. Poderia ter ainda contado como é bom conhecer algo que te torna mais leve.
Mas não. Ironicamente, aquele dia estava fadado a ser o dia de me encontrar com um certo peso, o meu lado aparentemente artificial, de falas bem planejadas e regidas pela falta de naturalidade (ou minha incapacidade de lidar com você, não sei bem). Continuei a insistir que o romance poderia vir separado de todo o resto, em uma bolha iluminada, abençoada e espetacularmente culta e cheia de símbolos. Aqui deste lado, eu posso (evito o “poderia”) agir de forma a demonstrar a minha real singularidade e sinceridade. Mas dessa vez torno pública a minha fraqueza. Como eu poderia saber? Preferi acreditar que naquele momento não havia outro caminho. E hoje estou aqui, pensando como é incrível que todos esses conflitos, dúvidas, angústias e suas grandes dimensões existam apenas dentro de mim.
Mas afinal, dessa forma são meus passos.




domingo, 27 de novembro de 2011

A alma e o corpo,11

me distrai com uma utopia
que me levou sem destino
pra conhecer o caos e o acaso

     no tumulto, vejo o seu amor querer implodir
     mas ele não é capaz,
     pois ele é uma invenção.

     no meio do caos, vejo o seu olhar impelir
     o meu chamar,
     meu sonho, minha intenção
 
     nesse palco não sei quem irá subir,
     ou seria a minha hora?

     não tenho pressa,
     pois eu sei
     que alguém vai subir neste palco
     mesmo que tropeçando, por acaso

     não vou afinal, pedir por perfeição.
 
      por um segundo
      me vi caminhando por aquelas ruas
      em que eu queria estar.
      mas na verdade,
      era minha imagem,

      eu me vi passar.

sentei e esperei o acaso chegar com o vento
às vezes leve, na forma de versos,
às vezes pesado,
como uma pedra atirada,
     contra minha janela.

domingo, 30 de outubro de 2011

aurora

nunca pensei em chegar até aqui
em águas tão profundas, e ao mesmo tempo, rasas

seria muito querer
compartilhar o medo do amanhecer
em um oceano calmo
junto com você?
e prender a respiração, apreensivos
pelo que está por vir
(e não sabemos o que)?

porque carregar tudo isto sozinho
é muito árduo,
é triste.

seria muito querer
algo que nunca existiu antes
na história dos homens e do universo?

(ao que parece, isso não é tão difícil assim)

isso é possível?
me diga que sim,
 me diga que sim

    porque até amanhã, ao despertar
      pode ser que eu não sinta mais.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

(eu vejo) um epílogo

parece loucura querer resolver sua vida em um dia,
talvez você só precise respirar bem fundo..
pois nessas horas eu espero
           o tempo me dizer
             que nada pode garantir
                que estamos sozinhos.

                                  ou pode?

parece loucura, mas eu estive preso por muito tempo.

dentro de meus pensamentos
eu estou desenhando à mão meu epílogo.
(eu sei, ainda é cedo) mas é o lugar onde me sinto bem,
diferente dessa insônia e confusão, dos sonhos que se misturam
com a realidade.

não sei bem como tudo pode acabar
mas gostaria de pelo penos sentir o novo,

embora eu não tenha o controle
               não tenha a perfeição
               e nada seja como penso..

       ..eu estive preso por muito tempo, lembra?

quero bem mais do que ver o presente se desfazer
(a cada piscar de olhos) em milhares de partículas
que se espalham pelo ar, sem volta.

o real, as pílulas e o copo d'água
(que sempre estiveram ao lado)
estão ali te esperando.
sim, estão.


queria poder ser prudente
mas eu vivo em um eterno epílogo,

eu não espero pelo sono mais tranquilo e sereno
e não acho que é isso
que eu precise
agora.

sábado, 17 de setembro de 2011

a despedida

segue meu passos
bem lentamente
uma sombra corcunda
que não é
a do meu corpo,
enquanto
o sol se afunda
no horizonte...

eu temo o final
de mais um belo dia.

mas ela me sonda
como a ponta
dos dedos
suavemente
percorrem
os lábios...

uma sombra que me persegue
antecipando o final
de um lindo dia,

essa estranha companhia.

sábado, 10 de setembro de 2011

controle

me sufoco
com
meus
próprios
pensamentos.

"não quero ser como eles.
eles não parecem
com o que quero ser"

a neblina esta baixa,
mal consigo ver seu rosto.
e o futuro ... não parece ser
como imaginei.

as relações são obscuras
não há paisagem
só neblina
     neblina
     e fárois.

você se lembra?
quando as estações eram bem definidas
não havia nada com que se preocupar...

uma pequena porta, despercebida
no meio dessas ruas
esconde
um buraco,
onde vivo seguro
com meus pensamentos
só meus, de mais ninguém.

estradas, faróis e neblina.

não quero ser dono de nada
                 nem de ninguém,

mas quero o controle
em minhas mãos,

ter em mãos.
as regras
do meu próprio universo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

cidade vazia

          pouco  a  pouco,
          todos  vão  embora.
       este coração se esvazia de presença
     e é preenchido pela ausência
       que tanto esperei encontrar

          já passam das três.

         eu voo sozinho
      de frente para a imensidão
       dessas ruas desertas e silenciosas.

        estou indo para casa.

       eu sei que posso correr
       sem medo de me machucar
        pois tudo é um sonho

               e eu estou indo para casa.

             meu trajeto
             não indiquei
              com um rastro cor-de-tijolo
              no asfalto gelado dessas ruas,
           as únicas que conseguem me arrancar segredos
          a essa hora da noite

         não quero ser seguido,
       e não quero compartilhar
          dessa liberdade,
      essa sensação que não existe
     em nenhum outro lugar do mundo

            guardo-as bem
          dentro de bolhas,
        que nunca irão estourar,
          sementes
        que nunca irão germinar

    sim, só você pode arrancar de mim,
     que insisto em não querer admitir:
         nunca será a mesma coisa...

                               nunca será a mesma coisa...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

a mediocridade não existe

o caminho que trilho é único,
um rio eterno e caudaloso,
muitas vezes duvidoso
        que construi
           com minha mão
                   carregada de
                            tremores
                                 carregados de
                                            temores
       ao descobrir cada nova direção.

                                parece um erro
                                   por ser único,
                        o caminho que trilho.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

livre

ganhei a rua.

de onde vem o vento
que bate em meu rosto
enquanto o sol lentamente
me aquece
nessa manhã
cheia de dúvidas
e incertezas?

passo a alimentar
minha mente
com lugares que
nunca estarei,
um ponto de encontro
das almas que buscam
a plenitude.

há uma pequena praça,
com arvores borradas.
os postes de luz
iluminam pouco
a noite, indecisa,
enquanto
ao mesmo tempo,
me sinto livre do tempo,
me sinto livre do antes
                  e do depois

..livre das pessoas e seus pesos.

parece que não sou
o único ali presente...

é quando percebo
que já senti a mesma coisa
enquanto observava meu reflexo,
abraçado a uma causa
que me fazia sentir
                      sentir
                      sentir...
       
              o conforto
              e a plenitude,
              que vencem o medo
                                       e o tempo.

domingo, 22 de maio de 2011

Mel,

eu nunca fui
um bom contador de histórias,
mas isso não quer dizer
que eu não tenha
boas memórias
pra te entreter.

ainda não te contei,
mas eu já fui astronauta!
queria descobrir
o que havia além
da estrela mais alta.

um dia,
embarquei num foguete
sem cinto nem capacete
e quando cheguei lá em cima
parei pra admirar as luzes.
quem as colocou ali?

bem,
continuei viajando
e depois de longos anos
cheguei ao final do universo!

logo que cheguei
havia uma pequenina porta,

me aproximei devagarinho,
e quando girei a maçaneta
ouvi você suspirar baixinho
lá do nosso planeta:

"estou com saudades,
queria você aqui.."

me lembrei de suas caretas,
e sem pensar duas vezes,
soltei o segredo de tudo
das minhas mãos
e parti!

desculpe a demora,
mas me barraram na atmosfera!

"senhor, você não pode entrar na Terra
 porque não há vagas, pegue sua senha
 e aguarde na fila de espera"

então mostrei uma foto sua
e ele se encantou pelo seu doce olhar
e me deixou entrar
pelos fundos...

e foi exatamente aqui,
debaixo deste carvalho
que estamos
que eu aterrissei!
sem as respostas,
mas feliz,
por estar de volta.

domingo, 8 de maio de 2011

uma visita

mal consigo dormir,
você chegou sem avisar
e sem fazer barulho.
em poucos segundos
você me fez perder
o controle...

agora eu entendo
de onde vem
  e para onde vão
             a loucura
    e a insanidade.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

póstuma

uma lágrima caiu no oceano
e aquela onda
reverberou na memória
     de um certo ano,
       em que juventude era passado:

         ao descer lentamente
         as escadarias
         de granito branco,
         vi pelos vitrais
         a noite estrelada
         em que a lua brilhava
         entre piceladas anis
         e a nevoa cor-de-giz.
      
         alguém esperava lá fora
         no jardim de ciprestes.

         uma garota sem rosto
         e de simples vestes
         me chamava
         segurando
         uma vela
         acesa nas mãos.
      
         ao sair, encostei a porta
         e tudo se tornou preto e branco...
      
     o que mais importa,
           senão a esperança
                    e a beleza
            da própria vida?
        

domingo, 27 de fevereiro de 2011

eterno

                   deixo flores
para as futuras gerações,

como uma lembrança minha
para um público
que não vou conhecer.

deixo minhas palavras
          publicadas
em rede nacional,
e passarei a ser
um boneco
de papel machê
em seu criado-mudo,

só pra você não me esquecer.

                   a troco de que?

 durante as noites do inverno
minha imagem será cultuada
e minha passagem
por este mundo,
                           relembrada.

quero minha singularidade
                       congelada
para que meus feitos
          e sentimentos
se conservem, eternos
no conhecimento
              popular.

                       a troco de que?

            quero ficar na memória
                    dessa paulistania
                    e
                    talvez somente o eterno
                                       seja capaz
                     de me fazer companhia.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

de volta

  apesar de tudo ter um fim
   e os punhos sejam enfim
                             libertos
     julgo a chuva silenciosa
            enfeitando o jardim
                   de primaveras,
                 relembrando as
                memórias novas
                            e velhas
   enquanto em algum lugar
             doces lembranças
             e amarga saudade
      permanecem trancados
                 em uma gaveta.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

gótica

eu
não sei
se o vento
vem de fora
ou vem de dentro...

        caso queira o erro
                   então seja,
 honestamente culpado

      caso chegue a hora,
                  quero estar
 perfeitamente acordado

   caso queira o último abraço,
                                 bem ali
             continua ao seu lado
             a mais linda entidade

    que caso queira ver
                      vestida
     de tranças e listras
   
   distorcidas no tempo
               e no espaço
  
              siga seu passos,
              não a perca de vista.

domingo, 17 de outubro de 2010

sem título

por estar nas horas, ausente
sua presença é cáustica.

mas não se há prece
pelos púrpuros pares,
que continuarei a admirar
antes que as luzes se apaguem.

por sentir seu traços, eu vejo
que o doce sabor que sinto
nunca é igual um ao outro.

não se apresse
pelos púrpuros pares.

não se apresse
por tatua-los
em seu ombro esquerdo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

a beleza está nas formas claras

você está em um quarto
de paredes brancas,
flutuando em terceira pessoa.

não se sabe onde é o fim
ou o começo.

ouve-se ao fundo
um cântico de uma só nota
que nunca se esgota
no absurdo da alma

de costas lembrei
como é linda
a luz que enxergo
enquanto estou flutuando
em terceira pessoa

e quanto ao
riso que não se formou,
a foto que nunca existiu?

a vida é um mosaico de egos,
não se discute com o espontâneo.

de costas, tão claras são
as exceções e os excessos
de respeito e amor.

caminhando de mãos dadas
à beira d'água
me viciei,
nas formas claras.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

deriva

senti algo transcender
da minha pele
para o ar.

é como
caminhar rumo a Oslo
numa estrada de terra roxa

é como sentir
um tremor de terra
em uma noite de natal
e voar sem medo de cair.

é como estar solto
no espaco sideral[sic]

como você se sentiria
com sentimentos no estômago?

terça-feira, 27 de julho de 2010

lisianthus azuis

Julia
enxergava o mundo
em tons de lilás.
não buscava vida por um dia a mais
nem a perfeita simetria dos cristais.
talvez acabe por não conhece-la
por completo...

mas me lembro bem daquele dia
que você tirou os ouvidos da parede
e organizou suas idéias
em uma pequena caixa
de laço mal feito

uma incerteza a menos.

e assim
dormiu eternamente
com um sorriso,
por ter sido única

única.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

lágrimas em uma garrafa

quando perder
a consciência,
me aproximarei
do corpo
mais próximo,
em busca de calor

quando me perder
em minha lógica
e me puser a gritar,
irei procurar
uma voz humana

agradeço por estar imerso
num mar de imperfeições.

minha mente
fraca,
me fortalece,
me adoece.
minha melhor inimiga.

agradeço por estar imerso
num mar de imperfeições.

quando perder
a consciência,
me aproximarei
do corpo
mais próximo,
em busca de calor

quem dera que esteja você
do meu lado.

agradeço por estar imerso
num mar de imperfeições.