#1
(...) depois de tanto consumir
sua droga megalomaníaca,
se deu conta de que estava cego,
cego para o mundo e sua realidade,
que para ele não era suficiente.
afundou-se em alucinações,
sonhos confortáveis e macios
como a cama
de onde você considera
sua própria casa;
depois de tanto consumir
sua droga megalomaníaca
se convenceu a construir uma ideia
(como um grande e majestoso castelo)
indestrutível, impenetrável e única,
que de tão perfeita e métrica,
era confusa
era falsa
e se esfacelou
em frente aos seus olhos,
como um castelo feito de areia suja e úmida.
“Cara J.,
um dia eu pensei
que quando estivesse ao seu lado
tudo seria leve.
Mas eu estava errado.
Sim, eu estava errado.
Por você, apostei tudo o que tinha,
embora eu não tivesse
nada a perder. Adeus.”
Somos muito mais do que uma imagem que queremos bancar, mas às vezes nos prendemos a certas representações de tal forma que esquecemos aquilo que nos orgulhavamos de ser um dia. Embora sempre ouça as pessoas dizerem que não mudariam nada no passado delas (eu já disse isso), hoje lamento que tenha sido assim. Mas para ele, já era tarde:
continuou a carregar pelo píer
a sua megalomania intacta
em uma garrafa de bebida barata
justo ela,
a mesma que o fez perder de vista
quem realmente o amava
tantas e tantas vezes...
ele tirou o seu sobretudo
e se jogou no mar.
percebeu que o seu sonho nunca poderia se tornar real,
mas poderia ser diferente,
poderia ser melhor
poderia ser pior,
poderia ser até, constrangedor,
mas nada seria como imaginou.
#2
com um riso tímido,
e olhos virados para o chão;
lembrei de um momento bom.
descíamos aquelas escadas falando da beleza das coisas
como dois bobos...
a minha imagem é puramente, poesia.
a poesia visual, culta e métrica
que vendo à você, vendo você
com um sorriso bobo,
porém verdadeiro.
outro dia
com um riso tímido,
olhos virados para o chão
e sentados em um banco qualquer,
percebi o quão engraçado
tudo isso poderia ser
mas talvez isso não signifique o mesmo pra você.
#3
(...)Embarquei naquela viagem matinal como quem não esperava grande coisa. Mas um encontro aparentemente banal com outra me fez lembrar o quanto pequenas coisas podem significar muito. O caminho era a última coisa pela qual eu me interessava naquele momento. O tempo passou rápido. Eu poderia me ter concentrado na beleza de seus olhos, no jeito como as palavras vinham de você; poderia ter aproveitado cada minuto como se fosse o último; poderia ter dito o que eu estava prestes a fazer naquele dia. Poderia ter ainda contado como é bom conhecer algo que te torna mais leve.
Mas não. Ironicamente, aquele dia estava fadado a ser o dia de me encontrar com um certo peso, o meu lado aparentemente artificial, de falas bem planejadas e regidas pela falta de naturalidade (ou minha incapacidade de lidar com você, não sei bem). Continuei a insistir que o romance poderia vir separado de todo o resto, em uma bolha iluminada, abençoada e espetacularmente culta e cheia de símbolos. Aqui deste lado, eu posso (evito o “poderia”) agir de forma a demonstrar a minha real singularidade e sinceridade. Mas dessa vez torno pública a minha fraqueza. Como eu poderia saber? Preferi acreditar que naquele momento não havia outro caminho. E hoje estou aqui, pensando como é incrível que todos esses conflitos, dúvidas, angústias e suas grandes dimensões existam apenas dentro de mim.
Mas afinal, dessa forma são meus passos.
Muito bom, Augusto!!
ResponderExcluirGostei do formato do primeiro texto ;)
Beijos da Helena